Textos para discussão


Do Uol Notícias:

Governo anuncia redução da mistura de etanol na gasolina

Na última quinta-feira (7/1), durante a divulgação da safra de grãos 2009/2010, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, afirmou que a medida agora divulgada seria “uma boa hipótese”.

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Stephanes disse à Agência Brasil que, caso o percentual de álcool misturado à gasolina fosse reduzido, essa diferença representaria cerca de 100 milhões de litros de etanol a mais disponíveis no mercado por mês. Esse volume equivale a aproximadamente 7% do consumo dos veículos flex no período.

(…)

O ministro ressaltou que o problema de oferta de álcool é conjuntural e não estrutural, causado pelo excesso de chuvas no ano passado, que atrapalharam o trabalho das máquinas na colheita da cana e fizeram com que cerca de 60 milhões de toneladas do produto deixassem de ser colhidas. Como as usinas devem antecipar a colheita para março, um mês antes da época normal, em pouco mais de três meses a situação da oferta deve ser resolvida.

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A notícia fala de uma escassez temporária de álcool combustível e do esforço para evitar uma disparada de preços. No contexto do projeto, podemos nos perguntar sobre o que aconteceria com os preços e o abastecimento interno caso a demanda para exportação de álcool crescesse em grande escala.

Rogério Cezar de Cerqueira Leite e outros pesquisadores fizeram um estudo sobre a infra-estrutura necessária para que o Brasil possa suprir com etanol o equivalente a 5% da demanda de gasolina do mundo em 2025. Uma das conclusões é que seriam necessários 21 milhões de hectares plantados – segundo o mesmo artigo, em 2006 havia apenas 4 milhões. De qualquer modo, o estudo defende que o Brasil teria condições de estruturar a produção de forma adequada.

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O artigo de  Isaias Macedo, Situação atual e perspectivas do etanol, condensa bem o debate sobre o futuro tecnológico do setor. Abaixo está o resumo do artigo, aqui o link para o artigo completo da Revista Estudos Avançados.

Nos últimos trinta anos, a produção de etanol da cana-de-açúcar no Brasil avançou para 17 milhões de metros cúbicos, com perspectivas de atingir 35,7 milhões de metros cúbicos em 2012-2013. Esse crescimento ocorreu com grande aporte de tecnologia, por meio de geração, importação, adaptação e transferência interna. Uma análise das diferentes fases desse desenvolvimento é apresentada, com a evolução dos parâmetros tecnológicos e a grande competitividade atingida. A visão atual é que o setor poderá continuar a evoluir com melhorias contínuas ainda de modo importante, mas grandes “saltos” tecnológicos são possíveis mediante o desenvolvimento de tecnologias para o melhor uso da biomassa residual da cana (cerca de dois terços da biomassa total). Os estudos em curso indicam que a contribuição da cana para o suprimento de energia poderá ser muito superior (e diversificada) que a atual, e poderá ocorrer em paralelo com o desenvolvimento de biorrefinarias, levando a produtos de maior valor agregado.

Abaixo está um trecho do artigo Controvérsias em torno do Etanol, de Marcello Averbug. O texto foi publicado originalmente na CONJUNTURA ECONÔMICA, da FGV. Vol. 61 – N0 10. Outubro 2007, e pode ser acessado em formato PDF aqui.

“Inúmeros fatores explicam o empenho do Brasil e dos Estados Unidos em expandir a produção de etanol. No entanto, em ambos os países, a política de diminuição da dependência ao petróleo vem se processando através de uma ótica incompleta e conservadora, quando analisada sob o ângulo do transporte urbano.

Incompleta, porque brasileiros e americanos atuam fundamentalmente no lado da oferta de combustível. O correto seria focalizar também o lado da demanda, com intensidade superior à atual. Em outras palavras: ampliar investimentos destinados a alterar o modelo prevalecente de transporte de passageiros, priorizando o sistema coletivo. (…)

Outra forma de atuar na demanda por combustível seria através da difusão de veículos menos consumidores de gasolina, diesel, etanol, biodiesel e, até mesmo, gás. Tratam-se, por exemplo, dos híbridos (cujas características são descritas em parágrafos posteriores) e dos elétricos acionados por hidrogênio.”

A crítica de Averbug é bastante encontrada entre planejadores urbanos e ambientalistas: não basta apenas substituir o petróleo,  é necessário remodelar os sistemas de transporte.

A título de contraponto, pode-se indagar:

  • O governo, através de regulamentação e de investimentos diretos, tem capacidade de transformar de forma eficiente cada aspecto da produção e consumo da sociedade? A priorização – no caso,  para o lado da oferta do etanol – não é necessária?
  • Mesmo se a iniciativa pública tivesse essa capacidade de atuação plena, isso seria desejável? A preocupação ambiental não pode se tornar um moto para uma intromissão excessiva do governo em decisões privadas?

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