Vital para a economia do país — além de ter uma trajetória singular, originária de um programa público — o setor sucroalcooleiro vem merecendo incontáveis estudos e análises da academia e da imprensa. O aumento do interesse pelo setor a partir da virada do século fez crescer ainda mais essa literatura, adicionando-se também muitos artigos e estudos técnicos estrangeiros. Entretanto, deve-se dizer que faltam publicações que ofereçam uma visão integrada e interdisciplinar sobre o etanol e açúcar do Brasil, especialmente quando o seu contexto se torna ainda mais complexo por variáveis socioambientais e de comércio internacional. Por isso, deve-se dar as boas-vindas ao livro Estratégias para a Cana no Brasil – Um negócio classe mundial, de Marcos Fava Neves e Marco Antonio Conejero, publicado recentemente pela Editora Atlas.

A publicação é saudavelmente ambiciosa e analisa a produção de cana, o mercado interno e externo de açúcar e álcool, o mercado de bioeletricidade, passando pela de produção de etanol nos EUA (ver o release da editora e índice dos capítulos em post anterior). Sobre o mercado interno, por exemplo, vê-se detalhes tais como a frota de veículos flex, os tipos de contratos de distribuição e política fiscal. Chama a atenção a riqueza de dados compilados, demonstrando o esforço hoje necessário para acompanhar a dinâmica dessa agroindústria. Tal acompanhamento precisa se dar por dimensões variadas, como a emergência de biocombustíveis de segunda geração ou os impactos sociais da produção de cana. Os autores buscam não apenas oferecer uma descrição, mas identificar as tendências e cenários futuros mais relevantes, finalizando com a elaboração de um plano estratégico associado a uma análise SWOT.

Alguns dos pontos ressaltados pelo livro são:

– As metas já dispostas por diversos países a respeito da mistura etanol/gasolina vão demandar que a produção mundial de etanol triplique até 2020. (Base 2007, considerando um cenário com o barril do petróleo a US$ 80,00 e a sustentação dessas metas).

– Hoje o maior produtor de etanol no mundo são os EUA, não o Brasil. Porém, somos os maiores responsáveis pelo volume exportado (62% em termos volumétricos em 2008).

– Há um espaço de convergência entre os objetivos dos produtores de etanol do Brasil e dos EUA. A aceitação desse combustível como alternativa à gasolina é de interesse comum, e as empresas brasileiras poderiam atender ao excesso de demanda americana, especialmente nas regiões costeiras, mais distantes da produção de milho.

Seja como base para projetos de pesquisa – como será usado em nosso caso – ou como referência para quem quer conhecer o setor, Estratégias para a Cana no Brasil é altamente recomendável, sendo uma obra única sobre o assunto.

Do Estadão:

EUA confirmam etanol como biocombustível avançado

Agência do país reconhece etanol de cana-de-açúcar como contribuidor para redução de gases de efeito estufa

Eduardo Magossi

SÃO PAULO – A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (Environmental Protection Agency, EPA) confirmou nesta quarta-feira, 3, que o etanol de cana-de-açúcar é um biocombustível renovável de baixo carbono, que pode contribuir de forma significativa para a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa.

O anúncio, que contém a regulamentação final da lei que define a produção e uso de biocombustíveis nos Estados Unidos (Renewable Fuel Standard, RFS2), também designa o etanol de cana-de-açúcar como biocombustível avançado, capaz de reduzir as emissões de gases do efeito estufa em pelo menos 50%, quando comparado com a gasolina.

“A decisão da EPA ressalta os muitos benefícios ambientais do etanol de cana e reafirma como este combustível avançado, renovável e de baixo carbono, pode ajudar o mundo a mitigar os efeitos do aquecimento global e ao mesmo tempo diversificar a matriz energética, inclusive nos Estados Unidos”, afirmou o representante-chefe da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) em Washington, Joel Velasco.

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Do UOL Notícias:

Lula inaugura em MG 1ª usina do mundo movida a etanol

“São Paulo, 19 jan (EFE).- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou hoje em Juiz de Fora (Minas Gerais) a primeira usina movida a etanol capaz de gerar eletricidade em escala comercial.

‘O mundo desenvolvido vai ter que olhar com outros olhos o etanol. Eu penso que todo o mundo desenvolvido, na hora que tiver que assumir o compromisso e cumprir o Protocolo de Kyoto, de diminuir as emissões de gases do efeito estufa, vai ter que entrar na questão do etanol’, afirmou Lula ao inaugurar a usina elétrica.

A usina conta com uma turbina bicombustível, movida por gás natural ou etanol, desenvolvida pela multinacional americana General Electric e pela Petrobras. Tem capacidade para gerar 43,5 megawatts que atenderiam a 150 mil pessoas, cerca de um terço da população de Juiz de Fora.”
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Interessante notar que a turbina funciona com gás natural ou etanol. A capacidade de usar mais de um combustível parece estar presente em várias das tecnologias voltadas para a era pós-petróleo.

Do Uol Notícias:

Governo anuncia redução da mistura de etanol na gasolina

Na última quinta-feira (7/1), durante a divulgação da safra de grãos 2009/2010, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, afirmou que a medida agora divulgada seria “uma boa hipótese”.

(…)

Stephanes disse à Agência Brasil que, caso o percentual de álcool misturado à gasolina fosse reduzido, essa diferença representaria cerca de 100 milhões de litros de etanol a mais disponíveis no mercado por mês. Esse volume equivale a aproximadamente 7% do consumo dos veículos flex no período.

(…)

O ministro ressaltou que o problema de oferta de álcool é conjuntural e não estrutural, causado pelo excesso de chuvas no ano passado, que atrapalharam o trabalho das máquinas na colheita da cana e fizeram com que cerca de 60 milhões de toneladas do produto deixassem de ser colhidas. Como as usinas devem antecipar a colheita para março, um mês antes da época normal, em pouco mais de três meses a situação da oferta deve ser resolvida.

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A notícia fala de uma escassez temporária de álcool combustível e do esforço para evitar uma disparada de preços. No contexto do projeto, podemos nos perguntar sobre o que aconteceria com os preços e o abastecimento interno caso a demanda para exportação de álcool crescesse em grande escala.

Rogério Cezar de Cerqueira Leite e outros pesquisadores fizeram um estudo sobre a infra-estrutura necessária para que o Brasil possa suprir com etanol o equivalente a 5% da demanda de gasolina do mundo em 2025. Uma das conclusões é que seriam necessários 21 milhões de hectares plantados – segundo o mesmo artigo, em 2006 havia apenas 4 milhões. De qualquer modo, o estudo defende que o Brasil teria condições de estruturar a produção de forma adequada.

Ligados à FEA-USP e ao Markestrat (Ribeirão Preto),  os dois autores dessa obra possuem um grande conhecimento sistematizado e estratégico sobre o agronegócio da cana. Assim que lido de forma completa, este livro será comentado aqui.

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Release da editora: Pesquisadores da USP lançam obra sobre as estratégias do setor sucroenergético no Brasil

Muitos sistemas agroindustriais recebem admiração, mas a cana é especial, pela sua história, o beneficio que trás para o Brasil, a liderança mundial e por ver o desenvolvimento das regiões produtoras. A competitividade do Brasil na produção de açúcar e etanol é ponto pacífico. Sua manutenção, contudo, depende de planejamento.

O professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP em Ribeirão Preto, Marcos Fava Neves, coordenador do grupo de pesquisa Markestrat (Centro de Pesquisa em Marketing e Estratégia, e seu pesquisador assistente, Marco Antonio Conejero, doutorando em Administração pela FEA/USP, conseguiram a partir das notas de aula da disciplina de graduação “Planejamento de Sistemas Agroindustriais Sustentáveis” sintetizar os desafios e oportunidades vivenciadas por essa complexa cadeia produtiva em um livro. Dos rascunhos ao livro foram 2 anos de muita pesquisa e dedicação, revisando os trabalhos de personalidades do setor como Roberto Rodrigues, Francisco Graziano Neto, Marcos S. Jank, Jacques Marcovitch, Jose Goldemberg, Carlos E.F. Vian, Marcia Azanha D. de Moraes, Isaías Macedo, Plínio Nastari, Luiz Carlos (Caio) Carvalho, Walter Belik, Decio Zylbersztajn, André Nassar, Suani Coelho, Luiz Fernando Paulillo, Pery Shikida, Heloisa Burnquist, Manoel Regis Lima Verde Leal, Andre Ricardo Alcarde entre outros. Além disso, procurou-se debater algumas idéias, a partir do trabalho dos autores em mais de 10 projetos no setor, visando os “caminhos para a cana”. Elas vêm sendo divulgadas há tempos. Algumas já vêm sendo implementadas, seja pelas organizações existentes como a UNICA, ou por Governo e outros.

O livro está organizado em 10 capítulos. Começa por falar da produção de cana, seus desafios (cap. 1), depois segue para explicar como se dão as transações mais importantes do setor, que são as de compra de cana (cap. 2). Na sequencia, fala-se da indústria, seus movimentos, estratégias de crescimento e diversificação, internacionalização (cap. 3). Dedica alguns capítulos a falar dos negócios do açúcar (cap. 4), dos negócios internacionais do etanol (cap. 5), dos negócios nacionais do etanol (cap. 6), dos negócios da bioeletricidade (cap. 7), da agenda socioambiental da cana (cap. 8), da indústria do etanol nos EUA (cap. 9). O capítulo 10 se ocupa de apresentar um plano estratégico ao setor de cana. A obra traz prefácios do ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, do atual presidente da Única, Marcos S. Jank, do atual secretario do meio-ambiente do Estado de S. Paulo, Xico Graziano, e do atual presidente da Copercana/CanaOeste, Manuel Ortolan. Além disso, tem o pósfacio escrito pela renomada professora da Esalq/USP e referência no setor, Márcia Azanha de Moraes. Algumas organizações, como Basf (agroquímicos), Multiplus (empresa de eventos, organizadora da maior feira do setor, FENASUCRO), Zilor Energia e Alimentos (importante grupo do setor sucroenergético) e Copercitrus (importante cooperativa agrícola do Brasil), já garantiram uma tiragem mínima da 1º. edição. Com isso, 1700 unidades já foram vendidas antes mesmo do livro chegar às livrarias de todo o Brasil. O apoio institucional fica a FEARP/USP, FUNDACE, MARKESTRAT, PENSA, PAA-FAUBA (Argentina), PECEGE/ESALQ/USP.

Em síntese, o livro traz uma visão prática e objetiva da cadeia produtiva da cana-de-açúcar à luz de conceitos teóricos clássicos como agribusiness, sistemas agroindustriais, cadeia de suprimentos, canais de distribuição, ações coletivas, estratégia, planejamento e networks. A proposta é que o esforço de planejamento do setor vise a sua sustentabilidade, para que o Brasil fique cada vez mais competitivo e numa confortável posição em suprimento energético para o mundo. Num momento onde o mundo precisa de água, de alimento, de energia, a cana, sem sombra de dúvida, é uma resposta principalmente brasileira, para ajudar a suprir estas necessidades.O livro “Estratégias para Cana no Brasil: Um Negócio Classe Mundial”, dos autores Marcos Fava Neves e Marco Antonio Conejero, com 288 páginas, pela Editora Atlas, ao preço de R$ 51,00, tem o seu lançamento no dia 17 de dezembro, a partir das 18 hs, na Livraria ParaLer, do Ribeirao Shopping. Compras corporativas podem ser feitas diretamente na Editora Atlas, com a Sra. Miriam S. F. Rodrigues, pelo Tel.: (16) 3977-6060 ou pelo email: vendas.rp@editora-atlas.com.br .

Do UOL Notícias: Minc e Serra defendem etanol em Copenhague

São Paulo – O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), defenderam o etanol hoje, em Copenhague, como uma das principais iniciativas do Brasil para reduzir a emissão dos gases que causam o efeito estufa. Durante evento paralelo realizado pela Aliança Brasileira pelo Clima, Minc afirmou que a comunidade internacional não tem mais motivo para duvidar da sustentabilidade da produção brasileira do combustível renovável.

“Fizemos o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar para garantir que nosso etanol seja 100% verde. Garantimos com isso que não haverá novas usinas de cana no Pantanal, na Amazônia, em áreas de vegetação nativa e que não vai haver queimadas”, disse. Para o ministro, países que criticam o modo de produção brasileiro não têm mais motivos para criar barreiras comerciais ao etanol.

[notícia completa]

Há diversas abordagens para compreender estratégias empresarias e sua formulação. Enquanto deve estar ciente dessa diversidade, o pesquisador necessita, para efeitos práticos, optar por linhas mais específicas.

Para se ter um panorama dos estudos sobre estratégia, recomenda-se a coletânea O Processo da Estratégia – conceitos, contextos e casos, por Henry Mintezberg e outros, Editora Bookman, trad. por Luciana de Oliveira da Rocha, 2006. Nos textos do livro, a definição mais abrangente vem de James Brian Quinn:

“Uma estratégia é o padrão ou plano que integra as principais metas, políticas e seqüências de ação da organização em um todo coeso. Uma estratégia bem-formulada ajuda a organizar e alocar os recursos de uma organização em uma postura única e viável, baseada em suas competências e deficiências internas relativas, mudanças antecipadas no ambiente e movimentos contingentes por parte de oponentes inteligentes.”

Quando Quinn escreve “plano ou padrão”, ele está buscando conciliar duas perspectivas distintas. Uma enfatiza a capacidade de antevisão e planejamento da estratégia. A segunda olha para as ações práticas tomadas empresa, algumas simplesmente voltadas para o curto prazo e decididas ad hoc, que acabam por formar um comportamento consistente (padrão). Esta segunda visão enfatiza o efeito de ações não necessariamente antevistas.

Já Michael Porter prefere definir estratégia especificamente segundo a noção de posicionamento:

“Estratégia é criação de uma posição de valor e única, envolvendo um conjunto de atividades diferentes. (…) A essência do posicionamento estratégico é escolher atividades que sejam diferentes das atividades dos rivais.”

Nesse mesmo artigo, O que é Estratégia?, Porter afirmara:

“Uma companhia só pode ter um desempenho melhor que as rivais se puder estabelecer uma diferença que possa preservar”.

Desenvolvendo o seu argumento, Porter enfatiza como as diferentes atividades da empresa precisam ser ajustadas segundo o posicionamento estratégico. Esses ajustes podem se dar nos níveis de consistência simples, reforço e otimização. No fim do texto, estratégia é redefinida como “criar ajuste entre as atividades de uma empresa”.

(Se voltarmos à definição de Quinn, a idéia de posicionamento está no trecho “postura única e viável”. A definição dele também abrange a análise SWOT – “competências e deficiências internas relativas”, prospectiva – “mudanças antecipadas no ambiente” – e ainda teoria de jogos e abordagem contingencial – “movimentos contingentes por parte de oponentes inteligentes”.)

Neste projeto, estamos voltados para estratégias focalizadas em tecnologia e conhecimento. Esse assunto será tratado aqui posteriormente.